História da Argentina

Buenos Aires pouco após sua fundação, em 1536
Buenos Aires pouco após sua fundação, em 1536

A História da Argentina tem início com a chegada dos primeiros seres humanos à região, estimada em onze mil anos antes da Era Comum (antes de Cristo).

A região noroeste de seu atual território formava parte do Império Inca e as pampas eram dominadas por ameríndios nômades. Em fevereiro de 1516 o navegante espanhol Juan Díaz de Solís pilotou sua embarcação ao estuário do Rio da Prata e reclamou a região em nome da Espanha.

A colonização espanhola se deu ao longo dos séculos XVI e XVII. O nome Argentina vem de argentum, prata em latim, visto a grande quantidade do metal encontrada na região junto aos indígenas.

A independência da Espanha ocorreu em 1816 e deu origem a inúmeras disputas internas. A proclamação da primeira Constituição se deu em 1853, ainda hoje vigente, com as modificações ocorridas em 1994.

Ao longo da metade do século XIX até metade da década de 40 a história do país foi marcada por conflitos internos entre conservadores militares e liberais civis, merecendo destaque o início do movimento peronista ao final da Segunda Guerra Mundial.

Entre 1955 e 1983 alternaram-se no poder inúmeros presidentes civis e militares, com golpes frequentes e implantação de ditaduras violentas. Desde então a democracia argentina vem acompanhada de grande desordem econômica, que atingiu seu extremo durante a presidência de Fernando de la Rúa com uma recessão sem precedentes no país.

Atualmente a Argentina apresenta alto crescimento econômico e já retomou ao patamar anterior à última moratória.

Índice

[editar] Pré-História

56% da população contemporânea argentina possui ao menos um antepassado entre os povos pré-colombianos. A história e herança indígena na Argentina tende a ser marginalizada por uma tradição histórica e uma cultura predominante que definiu o povo argentino como um "povo europeu transplantado" (Darcy Ribeiro).

[editar] Populações Pré-Colombianas

O cientista argentino Florentino Ameghino (1854-1911) elaborou uma teoria que afirmava serem os Pampas o local de origem do homem moderno (o Homo Pampeus). Esta ideia foi posteriormente refutada pela comunidade científica.

Os primeiros seres humanos a chegar no atual território argentino parecem ter vindo pelo extremo sul da Patagônia, provenientes do que hoje é o Chile. A presença humana mais antiga se encontra em Piedra Museo (Santa Cruz) e remonta a 11.000 anos a.C. Junto com os sítios arqueológicos de Monte Verde (Chile) e Pedra Furada (Brasil) constituem, até o momento, os locais de povoamento mais antigos da América do Sul e sustentam a teoria de povoamento recente da América.

Outro remoto assentamento foi localizado em Los Toldos, também na província de Santa Cruz, com restos que datam do Décimo milénio a.C.

Estes primeiros habitantes do território argentino caçavam milodontes (Milodon darwinii) – semelhantes a um grande urso com cabeça de camelo; já extinto – e hipidions (Hippidion principale) – cavalos sul-americanos que desapareceram há 10.000 anos – além de guanacos, lhamas e emas.

Cova das Mãos, Santa Cruz
Cova das Mãos, Santa Cruz

Próximo dali também é possível ver as pinturas de mãos e guanacos estampadas 7300 a.C. na Cova das Mãos (Rio Pinturas, Santa Cruz). Trata-se de uma das expressões artísticas mais antigas dos povos sul-americanos e foi declarada Património Mundial pela UNESCO.

Por volta de 9000 a.C. já havia se iniciado o povoamento dos pampas, ao passo que a zona noroeste do território argentino começou a ser habitada em 7000 a.C.

[editar] Zonas Culturais

Os povos primitivos argentinos se dividiram em dois grandes grupos: os caçadores e coletores, que habitavam a Patagônia, o Pampa e o Chaco; e os agricultores, instalados a noroeste, regiões próximas à Cordilheira dos Andes, as serras de Córdoba e, mais tarde, a Mesopotâmia argentina.

[editar] Culturas andinas do Oeste e Noroeste

Cultura de Ansilta. Uma das primeiras culturas a desenvolver uma agricultura precária no atual território argentino foi a Cultura de Ansilta, onde hoje se encontram Mendoza, San Juan e San Luis. A surpreendente e misteriosa Cultura de Ansilta prolongou-se por mais de 2.000 anos, entre o ano 1798 a.C. até o ano 500, o que significa um extraordinário caso de continuidade. É provável que sejam antecessores das etnias da linhagem huarpe.

Cultura Condorhuasi. No ano 200 a.C. aparece a Cultura Condorhuasi, na atual Catamarca. Foi uma sociedade de pastores de lhamas onde a agricultura era apenas complementar. Tiveram violentos rituais, em que utilizavam de modo xamanista alucinógenos como o angico e realizavam sacrifícios humanos. Estiveram entre os primeiros em realizar ligas metálicas. Atualmente chamam a atenção suas esculturas antropomorfas de pedras. Desapareceu entre o ano 200 e 500

Cultura Tafi (200 a.C.-800 d.C.). Aparece no que hoje é o território de Tucumán. Eram agricultores que cultivavam, entre outras coisas, milho, em bem elaborados andares e socalcos, além de domesticar lhamas.

Cultura da Ciénaga (1-600). No século I apareceu a primeira sociedade plenamente agrícola que já se desenvolveu no atual território – a Cultura de Ciénaga, também na região de Catamarca. Tinham plantações de milho e sistemas de irrigação por canais. Tinham rebanhos de llamas ou lhamas e as utilizavam em caravanas para realizar intercâmbios entre aldeias. Construíram pequenas aldeias com no máximo 30 casas e foram antecedentes diretos da Cultura de Aguada.

Cultura da Aguada. Entre os séculos IV e X se desenvolve a Cultura da Aguada no território das atuais províncias de Catamarca e La Rioja, definida como "a mais andina das culturas do noroeste argentino", vinculada ao horizonte cultural Tiwanaku. A Aguada caracterizou-se por desenvolver uma extraordinária arte ao redor da figura do jaguar. Segundo José Pérez Gollán a Aguada é o momento histórico das culturas do Noroeste, em que surge uma nova forma política: os chamados "senhorios" ou "chefaturas", por estarem dominadas por um "senhor", que dominava uma determinada região pelo controle do excedente econômico e os recursos simbólicos. Nas suas representações destaca-se a presença do sacrificador.

Sua economia sustentava-se em uma expansiva agricultura de socalcos irrigados por complexos sistemas hidráulicos. Produziam milho, feijão, abóbora e mandioca. Trocavam produtos com lugares muito distantes – San Pedro de Atacama ou o Vale de Copiacó, usando um sistema de transporte baseado em lhamas. A metalurgia era muito avançada e descobriram o bronze antes da chegada dos espanhóis. Desaparece próximo a 900.

A batata é de origem sul-americana e mudou substancialmente a alimentação na Europa.
A batata é de origem sul-americana e mudou substancialmente a alimentação na Europa.

Cultura Santa Maria (1200-1470): a existência de terraças de cultivo e sistemas de irrigação muito complexos permitiu a Santa Maria ter uma grande população e acumular excedentes que eram armazenados em silos subterrâneos. Cultivaram o milho, a batata, o feijão, a quinoa e a abóbora; coletavam intensivamente alfarrobeira (Ceratonia siliqua) e Geoffroea decorticans. Foram exímios produtores de gado e utilizavam a forragem. Realizaram uma ampla troca de produtos com outros povos distantes usando suas caravanas de lhamas. Alcançaram um notável desenvolvimento da metalurgia do cobre, ouro e prata, além de serem conhecidos em toda a região por bronzes de excelente qualidade. Santa Maria alcançou uma grande complexidade sociopolítica: um senhor – cujo poder era hereditário –, guerreiros e sacerdotes. A cultura Santamariana coincida em grande parte com a etnia pazioca, conhecida também por sua denominação em quechua de diaguitas.

A Invasão Inca (1400-1520). A Formação de Tucumán: um século antes da chegada dos espanhóis à América, o noroeste andino do que hoje é a Argentina registrava a presença de uma grande quantidade de povos sedentários com identidades, culturas e civilizações próprias; entre eles contavam-se os pazioca, atacamenhos, omaguacas e huarpes. No século XV grande parte do território desses povos foi invadido pelos quechuas e anexado à zona meridional do Collasuyu (região meridional do território inca).

As Culturas Andinas independentes (1400-1520): Fora do território inca existiram no atual território argentino outras populações sedentárias com influências culturais andinas, como por exemplo os lule-toconoté (em guerra com os quechua) e os sanavirões na área que atualmente corresponde às províncias de Tucumán, a oeste de Santiago del Estero e norte de Córdoba, assim como os comechingões nas serras de Córdoba e San Luis.

Santuários Incas de Alta Montanha: Um dos mais interessantes pontos incas do território argentino foi o centro de rituais mais elevado do mundo, o vulcão Llullaillaco, a 6.710 metros, onde se realizavam sacrifícios humanos. Para os incas as montanhas eram huacas (lugares sagrados) e por essa razão estabeleceram um sistema de santuários nos cumes das montanhas mais altas dos Andes. Em 1999 uma equipe de arqueólogos realizou o resgate de três múmias incas, uma jovem (a donzela), uma menina (a Menina do Raio) e um menino, sacrificados no cume do vulcão, consagrados a Inti (deus do sol), Illapa (deus do raio) e Viracocha (o criador). Ceruti explica que "escolhiam-se meninos porque eram símbolos de pureza ante os deuses, e as meninas eram criadas na Casa das Virgens do Sol, onde viviam desde os oito anos de idade até o momento do sacrifício. O consumo de folhas de coca e o álcool de chicha adormecia as vítimas eleitas. Ao menos nesse caso não morreram com um golpe no crânio, nem por asfixia ou estrangulamento. Serenamente, ficaram adormecidas e morreram congeladas". Os meninos saíram a pé de Cuzco, acompanhados por um grupo de sacerdotes, em algum momento próximo ao ano de 1500.

O Senhorio de Tastil. Tastil (Salta) é considerada a maior cidade pré-colombiana do atual território argentino. Com uma população de 3.000 habitantes do conjunto lickan-antay, sustenta-se que o Senhorio de Tastil chegou a contar com uma série de colônias na atual região de Salta e Jujuy. Tastil ficou subitamente desabitada ao final do século XIV – no momento de seu apogeu – antes da invasão quechua. Não há consenso entre os estudiosos sobre as causas de seu colapso.

[editar] Culturas da Mesopotâmia

[editar] Os Guaranis

Na Mesopotâmia argentina assentaram-se, também recentemente, os Guaranis, provenientes da Amazônia e parte do grupo cultural conhecido como Tupi-Guarani. Estabeleceram-se no território argentino ao final do século XV e começo do XVI, vindos de noroeste principalmente pelos rios e outros cursos de água. Subdividiram-se em distintos grupos dependendo da região que habitavam, como os guaranis das ilhas (nas ilhas do Delta do Paraná), os de Carcarañá, de Santa Ana (ao norte de Corrientes), os cáingang ou cainguás (na região mesopotâmica) e os chiriguanos (no Chaco).

Viviam em aldeias (tekuas) que constituíam verdadeiras unidades tribais por ser entidades econômicas independentes. Cada aldeia guarani estava dirigida por um chefe político chamado mburuvichá e um chefe religioso chamado pajé. Sua organização social estava encabeçada por um cacique (tuvichá) hereditário.

Eram excelentes navegadores de canoas, caçadores da selva, coletores, pescadores e praticavam a agricultura. Entre os cultivos principais destacavam-se a mandioca (mandi'ó), a batata (jetý), a cabaça (andai), a abóbora (kurapepê), o milho (avati), o feijão (kumandá), o algodão (mandyju) e a erva mate (ka'á), usado para preparar a bebida que até hoje se conhece.

Os guaranis guiavam seus atos – e ainda guiam – pela Terra sem Mal, a base de sua cultura guerreira e suas práticas canibais. O povo guarani ingressou violentamente na região da foz do Rio da Prata, gerando um conflito permanente com as populações primitivas não guaranis que habitavam a área. Sua estratégia guerreira fundava-se em um sistema de massivos ataques. Antes deste faziam cair sobre as forças adversárias uma chuva de flechas e pedras. Logo vinha uma investida direta com lanças, porretes ou garrotes.

No século XV, a sociedade guarani passava por um período de mudança. Começaram a aparecer instituições unificadoras que provavelmente a longo prazo haveriam levado ao surgimento de um Estado. Surgiram os karai (palavra que inicialmente significava alguém supostamente dotado de poderes mágicos e logo passou a significar "senhor"), profetas aceitos por todas as tekuas (aldeias), que se enfrentavam entre si num permanente ciclo de busca da Terra sem Mal. Os Karais percorriam as aldeias predicando uma mensagem de aviso de importantes mudanças, e não pertenciam a nenhuma tekua em particular – eram Pan-Guaranis.

Cem anos depois, com a invasão européia na região, chegam os jesuítas que, em certo sentido, vêm competir diretamente com os karai. Ainda que estrangeiros, trazem uma mensagem unificadora. Sobretudo há algo muito importante: os guaranis que aceitavam sua convivência passavam automaticamente a estarem cobertos pelas leis do Rei da Espanha.

O idioma guarani ainda é falado extensivamente no noroeste argentino, sobretudo na província de Corrientes e no Paraguai, além de ter um poderoso impacto na fala cotidiana dos argentinos. Palavras como "che", que se associa mundialmente ao modo de falar argentino, são de origem guarani.

[editar] Culturas do Chaco

Na região norte do Chaco instalaram-se cinco culturas ou famílias linguísticas: guaycurú, mataco-macá, tupi-guarani, arauac e lule-vilela. À Cultura Guaycurú pertencem qom'lek, pilagás, mocovíes e os abipones. Distinguiam-se por suas habilidades guerreiras e com a chegada dos espanhóis incorporaram o cavalo, resistindo à colonização. Os espanhóis os chamavam de "frentones" (especialmente aos qomlek) porque depilavam a frente. Ocupavam o território oriental e sul da região do chaco. À Cultura Mataco-Macá integram os wichis ("mataco"), chulupies e chorotes; localizavam-se na região ocidental do Chaco. Chiriguanos pertenciam à Cultura Tupi-Guarani, a oeste da região. Na mesma área assentaram-se os chané, da Cultura Aruaques. A noroeste, ficavam os vilelas, desaparecidos durante a Colônia.

Muitas destas culturas ainda guardam a memória do grande cataclismo produzido por uma chuva de meteoritos gigantes no século XXXVIII a.C. na zona conhecida como Campo do Céu.

[editar] Culturas do Pampa e da Patagônia

Na região dos pampas e Patagônia destacaram-se os het ("pampas antigos" ou "querandies"), os Tehuelches (tsonek) e sobretudo os Mapuches – estes controlavam o norte da Patagônia até o fim do século XIX. Os estudos antropológicos dos grupos caçadores e coletores, tradicionalmente considerados mais simples que os povos agricultores, puseram de manifesto a complexidade que alcançaram culturas de um alto grau de simbolismo, como os sélknam, aush, yaganes e kawésqar, da Terra do Fogo.

[editar] Cultura e Colonização Espanhola

[editar] A Conquista Espanhola (1516-1665)

Os primeiros europeus chegaram à região com a expedição de Américo Vespúcio, que contornou a entrada do Rio da Prata em 1502. Posteriormente, o navegador espanhol Juan Díaz de Solís, em busca de uma passagem para o Pacífico, descobriu o Rio da Prata em 1516, e ao desembarcar no atual território do Uruguai foi atacado e morto pelos charruas. Os sobreviventes embarcaram novamente até a Espanha, mas muitos destes naufragaram e se refugiaram na Ilha de Santa Catarina, atual Florianópolis.

Fernão de Magalhães, "descobridor" do Oceano Pacífico e do estreito que leva seu nome
Fernão de Magalhães, "descobridor" do Oceano Pacífico e do estreito que leva seu nome

Fernão de Magalhães percorreu a totalidade do litoral argentino, encontrando-se com os Tehuelches, aos que por sua altura foram denominados Patagões, em relação a um personagem fictício da época, além de descobrir o estreito que leva seu nome. Acredita-se que navios de sua expedição, desviados por um temporal, haveriam chegado às Ilhas Malvinas; em sua expedição viajou Antonio Pigafetta, autor das primeiras descrições geográficas destas terras. Em 1526 uma expedição com o objetivo de repetir a viagem de Magalhães e Elcano, capitaneada pelo italiano Sebastião Caboto, encontrou-se com os náufragos de Santa Catarina, os quais os contaram histórias ocorridas nos locais, segundo os quais, remontando o chamado "Mar de Solís", chegava-se a uma terra chamada "Serra de Prata". Tentados por possíveis riquezas, os expedicionários decidiram ir em sua busca. Assim, internaram-se no "Mar de Solís" (o Rio da Prata), ao que nomearam "Mar Doce". Na ribeira do rio Paraná fundaram o forte Sancti Spiritu, próximo à atual cidade de Coronda (Santa Fé). Percorreu o Paraná, chegando ao Paraguai. Sem sucesso, voltou à Espanha em 1530, onde se difundiram as lendas da Serra de Prata e "O Rei Branco".

Após a conquista do Peru, a Coroa entregou as terras da América do Sul em "Capitanias", concedidas aos patronos. Em 1534 a parte norte da atual Argentina foi entregue a Pedro de Mendoza; a região que vai do Estreito de Magalhães até o Pólo Sul passava a ser outorgada a Pedro Sarmiento de Gamboa. Mendoza chegou ao Rio da Prata em 1536 e fundou o Porto de Santa María del Buen Ayre, em honra à virgem de Bonaria, da cidade de Cagliari, patrona dos navegantes. Acredita-se que a cidade havia assentado o atual Parque Lezama de Buenos Aires.

A relação com os pampas e querandies que habitavam a área foi cordial no começo, com o abastecimento de mantimentos na expedição graças a eles; mas como esses povos eram nômades e levavam uma economia de subsistência, logo houve tensões devido às demandas espanholas para o que os "índios" não tinham para dar. Assim, enquanto os capitães da expedição percorriam a região em busca de ouro e prata, aqueles que ficaram na cidade guerreavam constantemente com os locais. Nesta situação, devido a uma cruel matança de nativos, estes cercam a cidade, levando seus ocupantes à fome e ao canibalismo.

Juan de Ayolas percorreu o Paraná, nas margens do qual fundou o forte Corpus Christi, próximo às ruínas do Sancti Spíritus. Ao norte do Paraguai, sobre o rio de mesmo nome, fundou Candelaria, de onde saiu em direção ao Alto Peru, já governador delegado, visto que Mendoza voltou à Espanha devido à sua saúde — morrendo em alto-mar. De Candelaria Domingos Martínez de Irala e Juan Salazar de Espinosa continuaram a exploração, cujos resultados foram a fundação de Assunção (1537) e o descobrimento da desejada "Serra da Prata", à época já ocupada por espanhóis: Potosí.

Em 1537, com a morte de Mendoza, a coroa ditou a Cédula Real de 12 de setembro de 1537, dizendo que no caso da morte de Ayolas, o cargo de governador ficaria à disposição dos votos dos habitantes. Com a morte deste, Irala foi eleito governador, ordenando o despovoamento de Buenos Aires, ocorrido em 1541.

No caso de outra capitulação que cobria o território argentino, a cargo de Simón de Alcazaba e um grupo denominado "os leões", teve destino trágico. No início de 1535 a expedição chegou ao Golfo de São Jorge, atual Chubut, onde fundou o forte denominado Nueva León, de onde se realizaram várias expedições. Porém, devido às inclemências do clima e do terreno, os poucos sobreviventes se amotinaram, mataram Alcazaba e se dedicaram à pirataria.

Sarmiento de Gamboa fundou Filipolis (Ou Real Felipe) e Nome de Jesus no Estreito de Magalhães (atualmente sob jurisdição chilena), tendo pouco sucesso devido ao clima e atividade de corsários ingleses (Sarmiento de Gamboa foi sequestrado por eles). Com tais fatos, pode-se dizer que o processo de Capitanias falho — exceto por parte dos sobreviventes de Santa Maria de Buenos Aires: este foi o núcleo europeu que fundou Assunção do Paraguai e, a partir de Assunção, se repovoaria "O Litoral" e Buenos Aires, assim como a fundação de Santa Cruz de la Sierra.

O interior argentino começou a ser explorado pouco depois da conquista do Peru. Em 1536 Diego de Almagro percorreu o norte em busca de uma passagem para o Chile. Foi Diego de Rojas o primeiro a realizar uma exploração com destino ao território conhecido hoje como Tucumán. Entrando pela Quebrada de Huamahuaca em 1543, Rojas foi morto em um conflito com os indígenas em Santiago del Estero. A expedição continuou a mando de Francisco de Mendoza, com que chegaram ao Rio Paraná. Mendoza foi morto por seus homens devido ao seu tratamento despótico e os sobreviventes retornaram ao Peru. O governo peruano encomendou uma terceira expedição, iniciando sua marcha em 1549 com o objetivo de colonizar o território. A "entrada" deste teve sucesso em 1550 com a fundação da cidade Do Barco aos pés da Serra do Aconquija (atual Tucumán).

Pouco tempo depois chegou ao lugar Francisco de Villagra, representante de Pedro de Valdivia, alegando que aquelas terras correspondiam à jurisdição da Capitania Geral do Chile. Núñez del Prado decidiu transladar a cidade mais ao norte, nos Vales Calchaquies, de difícil acesso e onde haviam se refugiado várias tribos nativas da perseguição espanhola. A hostilidade dos diaquitas determinou que a cidade Do Barco fosse mudada uma segunda vez, novamente ao sul, estabelecendo-se nas margens do Rio Doce (atual Santiago del Estero). Informado de tal fato, Valdivia enviou Francisco de Aguirre para substituir Núñez del Prado, a quem despachou apressado ao Peru. Com a posse da cidade resolveu fazer um 3º traslado, 2 km ao sul, em um lugar mais elevado, renomeando-a Santiago del Estero (1553).

A província de Tucumán seguiu dependente do Chile por 10 anos. Nesse período, fundaram-se três cidades como defesa de Santiago del Estero: Cañete, Londres e Córdoba del Calchaqui, mas a hostilidade do governador Castañeda com os índios gerou uma rebelião destes sob a direção de Juan Calchaqui, cacique do Omaguacas, que destruíram as cidades estabelecidas como defesa. Em 1563, quando Felipe II decretou que Tucumán seria dependente da Audiência de Charcas, foi nomeado governador novamente Francisco de Aguirre. Este decidiu reconstruir as cidades que haviam sido destruídas e, em 1565, Diego de Villaroel fundou San Miguel de Tucumán, onde antes havia existido Cañete. O sucessor de Aguirre buscou se desprender da tutela de Charcas, orientando a colonização para o Atlântico para se relacionar diretamente com a Espanha. Assim, em 1573, fundou a cidade de Córdoba de Tucumán.

No Rio da Prata, a colonização concentrou-se no Paraguai, onde os guaranis eram numerosos e sedentários, passíveis de ser encomendados. Ao longo do governo de Irala, o governador Juan de Garay tinha a mesma idéia que Cabrera, de forma que em 1573 marchou para repovoar Buenos Aires. No caminho para a foz do Paraná encontrou-se com Cabrera, a quem reconheceu o direito sobre a área. Garay decidiu então fundar no lugar uma cidade intermediária: Santa Fe da Vera Cruz. A tarefa de Garay completou-se em 1580, quando fundou a cidade de Trinidad e Porto de Santa Maria del Buen Ayre, que com o tempo seria conhecida como Buenos Aires.

Na região do Cuyo, à época sob autoridade do Chile, o governo fundou em 1561 a cidade de Mendoza, por Pedro de Castillo. Anos mais tarde, em 1594, seria fundada San Luis de la Punta de los Venados, atribuída a Luis Jofré de Loaysa, completando a colonização do Cuyo, habitada por pacíficos huarpes — que sofreram duramente o julgo imposto pelos conquistadores (trabalho e morte nas minas do Chile), até que uma mestiçagem quase completa com os europeus trouxe a paz.

A colonização continuou de maneira paulatina, fundando-se cidades que séculos mais tarde dariam origem às províncias argentinas: Hermando de Lerma fundou em 1582 a cidade de San Felipe de Lerma no vale de Salta; em 1588 o processo se estende à província do Rio da Prata, com a fundação de San Juan de Vera de las Siete Corrientes; em 1591 Juan Ramirez de Velasco funda a cidade de Todos los Santos de la Nueva Rioja e, em 1592, é fundada San Salvador de Jujuy por Francisco de Argañaraz. A última das cidades argentinas é San Fernando del Valle de Catamarca, fundada em 1683 por Fernando Mate de Luna.

Mapa da região dos rios Paraná e Paraguai (cerca de 1600), mostrando a província do Rio da Prata (atual Paraguai)
Mapa da região dos rios Paraná e Paraguai (cerca de 1600), mostrando a província do Rio da Prata (atual Paraguai)

Durante todo o período da conquista não se conseguiu penetrar nos Vales Calchaquies, onde haviam se refugiado os povos originais da Argentina. A escassa população espanhola em Tucumán deixou a situação mais dificil. A primeira das revoltas calchaquies iniciou-se em 1630 com a ascenção do caquique Chalemin, e manteve-se até 1643, com intensas lutas, o incêndio de La Rioja e a segunda destruição de Londres. A segunda rebelião começou por conta de um aventureiro andaluz que negociou com o governador Alonso de Mercado y Villacorta a exploração dos vales calchaquies com o título de Inca para conseguir dominar os indígenas — acordo este desaprovado pelo Vice-rei do Peru. Após lutas cruéis, Mercado y Villacorta derrotou o andaluz e dizimou as tribos, sendo a última a dos quilmes, derrotados em 1665 e deportados a uma missão próxima a Buenos Aires, onde hoje está a cidade de Quilmes.

[editar] A Colônia e o Vice-Reinado (1665-1810)

A repressão dos indígenas nos vales Calchaquies, a entrega em mita de muitos deles para trabalhar nas minas de Potosí, o processo de mestiçagem e a grande aculturação fizeram que as encomiendas dessem lugar a um campesinato relativamente livre. Na segunda metade do século XVI, tanto o Alto Peru e Tucumán como o Paraguai exigiam a criação de um porto no Atlântico Sul para poder estabelecer laços de comércio mais próximos com a Espanha e diminuir seu isolamento. É por estes motivos — e pela ameaça de incursões estrangeiras no Rio da Prata — que a Coroa Espanhola autoriza a segunda fundação de Buenos Aires. Desde então a cidade se converteu na saída natural dos produtos altoperuanos (entre eles a prata) e do Paraguai. Estabeleceu-se então, na década de 1580, um lucrativo comércio entre Tucumán e o Brasil através da cidade. Porém, devido à saída não autorizada de metais preciosos por esta via, em 1594 a coroa proíbe o comércio no porto de Buenos Aires, com algumas exceções para evitar o desabastecimento da população: a autorização de embarcar duas embarcações anuais com produtos da região (couro, principalmente) e uma certa tolerância com o contrabando.

[editar] O Contrabando

É justamente este último (o contrabando) o que seria a principal atividade econômica de Buenos Aires colonial pré-vice-reinado, e um constante objeto de perseguição de algumas autoridades. Entre estas destacou-se Hernando Arias de Saavedra (Hernandarias), primeiro governador do Rio da Prata nascido na América. Sua constante luta contra os contrabandistas criollos e portugueses na região foi em vão. É por ele que em 1617 ocorre a cisão da província em duas: O Paraguai e o Rio da Prata (territórios das atuais cidades de Buenos Aires, Santa Fe e Corrientes).

O contrabando se realizava de forma bastante aberta: geralmente um barco português, holandês ou francês ancorava nas proximidades da cidade e solicitava as reparações necessárias, as quais pagava como parte a carga que levava. Muitos comerciantes fizeram grandes fortunas em Buenos Aires, devido à necessidade de bens materiais e insumos que eram necessários em Tucumán e no Alto Peru — era altamente oneroso o transporte dos insumos através das fragatas e galeões, que deveriam atravessar o istmo do Panamá, embarcados até Lima e ainda cruzar os Andes (e várias aduanas secas). Uma aduana seca estabelecida em Córdoba em 1622 foi a reação para deter a demanda por bens contrabandeados.

A fundação da cidade de Colônia do Sacramento pelos portugueses à frente de Buenos Aires em 1680, veio reafirmar o crescimento do contrabando. Tomada meses depois pelo governador do Rio da Prata com um contingente de índios de Misiones, foi restituída à coroa Portuguesa no ano seguinte, através de um tratado. A Colônia foi tomada novamente em 1705, diante do afluxo da Guerra da Sucessão Espanhola, para ser devolvida novamente em 1715, desta vez sob a influência da Tratado de Utrecht. A briga entre Espanha e Portugal pelo Rio da Prata continuou em 1724, quando o governador espanhol Bruno Mauricio de Zavala funda a cidade de Montevideo para evitar a tomada da baía por um contingente proveniente do Brasil. Em 1750, a Espanha, pelo Tratado de Permuta, troca a Colônia pelo Mato Grosso e parte das missões jesuítas, originando uma guerra entre Bandeirantes (história) e guaranis, sendo este tratado revogado em 1761; em 1762, por conta da Guerra dos Sete Anos, o governador Pedro de Cevallos toma pela terceira vez a Colônia, que é devolvida no ano seguinte à coroa Espanhola em troca de Havana e Manila, tomadas pelos ingleses.

Em 1776 a Espanha se dá conta da necessidade em expulsar os portugueses do Rio da Prata, quando decide pela criação do Vice-Reinado da Prata, tendo como capital a cidade de Buenos Aires. Dessa forma, Pedro de Cevallos é enviado na chefia de um importante exército, que foi aumentado com um contingente de guaranis, acostumados a lutar contra os portugueses. Cevallos toma Colônia e a destrói, jogando sal no local de forma simbólica (a exemplo de Cartago), já que brevemente a cidade seria repovoada por criollos. Enquanto preparava o ataque à província do Rio Grande do Sul, firma-se em 1777 o Tratado de Santo Ildefonso, que repete as cláusulas do Tratado de Permuta.

[editar] As Missões Jesuítas

A igreja na Missão Jesuíta de San ignacio Mini, Misiones, Argentina
A igreja na Missão Jesuíta de San ignacio Mini, Misiones, Argentina

Em 1609 foi fundada a primeira das Missões jesuítas guaranis. As trinta missões chegaram a ser, no século XVIII, um verdadeiro empório comercial, um "estado dentro do Estado", como denominavam seus detratores, que se estabeleceu como um sistema de organização econômica e social distinto ao das colônias que as rodeavam. Visto o respeito com que os jesuítas tiveram pela organização social comunitária dos guaranis, conseguiu-se que as missões tivessem a base do seu crescimento. As missões eram povos indígenas, administrados pelos mesmos guaranis (sob o olhar paternalista dos missionários), onde a terra se dividia em duas: a tupá mbaé (propriedade de Deus), comunitária, e a avá mbaé (propriedade do homem), para a exploração familiar. O excedente era comercializado por todas as colônias do entorno (Plata, Tucumán, Brasil e até Alto Peru e Espanha) e proporcionava aos jesuítas capital para a expansão das missões e a manutenção de seus colégios e universidades (como tinham em Córdoba, centro regional da Companhia de Jesus).

Estância Jesuíta de Alta Gracia, Argentina
Estância Jesuíta de Alta Gracia, Argentina

Os principais produtos comercializados pelas missões eram a erva-mate, o tabaco, o couro e as fibras têxteis. Houve um grande assédio às missões por parte dos bandeirantes — caçadores de índios e riquezas provenientes do Brasil — que pretendiam vendê-los em São Paulo, cidade que, ironicamente, era uma missão jesuíta em sua fundação. As missões tiveram um papel chave na defesa do Paraguai e do Rio da Prata da expansão portuguesa. Justamente, depois da batalha de Mbororé, em 1644 (que durou 10 dias), na qual um exército guarani derrotou uma bandeira, foi permitido aos indígenas o uso de armas de fogo (porém apenas as de menor calibre). Tais exércitos das Missões foram de grande utilidade durante os combates entre Espanha e Portugal no Rio da Prata.

Além do trabalho, reza e culpa, os jesuítas também ensinaram aos guaranis música e arte. Assim, após a expulsão dos jesuítas do território, muitos guaranis mudaram-se para as cidades coloniais, como Corrientes, Assunção ou Buenos Aires, onde se destacaram como compositores e maestros de música, joalheiros e pintores. Em 1767 a Espanha expulsa a Companhia de Jesus de suas possessões, com o qual os povos índios passaram a depender dos governadores civis espanhóis, que os exploraram à revelia, até ao ponto em que no proncípio do século XIX quase todas as missões estavam despovoadas e em ruínas.

[editar] Economia Colonial

Durante a época colonial e até o regulamento de comércio livre de 1778, a economia de Tucumán e Cuyo estava dedicada a produção de insumos e bens de consumo para os mercados do Alto e Baixo Peru, Buenos Aires e Paraguai. Assim, vinhos e aguardente de Cuyo, mulas de Córdoba, tecidos de Salta e Tucumán, carretas de Córdoba e Tucumán, etc. eram produzidos sob o amparo do protecionismo espanhol. No século XVIII, sob os Bourbons, a atividade começou a variar, buscando proteger os interesses comerciais dos produtores peninsulares nos mercados cativos coloniais.

Em um primeiro momento, a atitude foi eliminar a concorrência: na localidade de Aimogasta conserva-se a "oliva histórica", segundo a tradição, o único sobrevivente da tala ordenada por Carlos III para eliminar a concorrência das azeitonas espanholas em La Plata (curiosamente, o espanhol Antonio de Alcedo, em sua obra Dicionário Geográfico-histórico das Índias Ocidentais ou América, de 1786-1789, menciona que La Rioja "teve durante um tempo algumas olivas, e vendo os vizinhos a grande utilidade que os produzia o azeite deram em economizá-lo de modo que nem para as lamparinas da Igreja queriam o dar, colocando sebo em seu lugar; desde então foi castigo do Céu ou causalidade apenas que haja hoje vestígio delas").

O comércio livre teve consequências desastrosas para a economia do interior da atual república Argentina, sendo que poucos setores, como o da aguardente, tecidos de e peças de montaria puderam sobreviver. Por outro lado, os comerciantes de Buenos Aires tiveram súbito aumento de sua atividade, o que trouxe um auge comercial, populacional e cultural à capital do novo Vice-Reino. A transferência da aduana seca de Córdoba para Jujuy em 1696 estabeleceu, para sempre, a área econômica sob domínio portenho e a fronteira norte da futura Argentina. Nos pampas, durante a colônia, a principal atividade econômica era a criação de gado. No princípio, devido a existência de milhares de cabeças de gado cimarrão, esta atividade se efetuava através das "vaquerías", viagens que penetravam nas planícies para capturar e abater o gado bovino, muitas vezes deixando para trás as carnes de menor valor econômico. Quando o número deste gado começou a se reduzir, apareceram as estâncias e o gado marcado, e de uma maior utilização do animal, com o surgimento das fábricas de sebo e charqueadas.

[editar] Organização Social

A sociedade colonial apresentou aspectos dissonantes de acordo com a região. No interior, determinou-se uma sociedade de castas fortemente diferenciadas: os fazendeiros brancos eram o topo social e centralizados do poder nas cidades; eram educados e refinados, enquanto os campesinos mestiços estavam em condições quase servis. A população negra era muito escassa, reduzida quase em sua totalidade ao serviço doméstico, salvo em cidades mais mercantis como Córdoba. No momento da independência, existiam algumas encomiendas no Noroeste Argentino. Em contraponto, no litoral, e especialmente em Buenos Aires, os estancieiros não representavam a nata da sociedade, visto que eram produtores medianos, de caráter rude devido à atividade junto ao gado e que residiam na maior parte do tempo nas campanhas. A elite portenha estava representada pelos comerciantes.

Gaúchos
Gaúchos

Com a instalação do Vice-Rei e o comércio livre, instalou-se uma burocracia a quem só tinha acesso nativos da Espanha, exceto em posições mais baixas onde se admitiam criollos; e a multiplicação do comércio com a Espanha levou à instalação de várias casas comerciais espanholas na cidade, competindo diretamente com os comerciantes criollos, de menores recursos. Começava assim a dicotoma entre os criollos e os espanhóis. Nesta época, quase um terço da população era negra em Buenos Aires, e se alguns se dedicavam a tarefas domésticas e outros a tarefas agropecuárias, a grande parte era instruída em algum ofício (como sapateiro, por exemplo), ou se dedicavam ao comércio ambulante, trabalhando desta forma para beneficiar a seus amos.

O grupo humano que predominantemente definiu a colônia Argentina (ainda que não estivesse presente em todas as regiões) foi o gaúcho, No ambiente dos pampas, onde a mestiçagem foi minoritária, e onde o foco estava centrado hegemonicamente na cidade e não no campo, como foi o mundo pampeano prévio à aparição da estância como modo econômico produtivo paradigmático, aqueles que levavam a marca no sangue do indígena estavam destinados a serem excluídos das cidades. Nascidos dos encontros das vaquerias e das tolderias, seu mundo era o campo. O gaúcho é um ser semi-nômade, que em ocasiões mantêm uma família em um lugar fixo, mas que na maior parte do tempo perambula, trabalhando de tempos em tempos — mais após o fim das vaquejadas, para logo partir quando já não necessita mais do trabalho para sobreviver. Desde o século XVIII é visto pelas autoridades como parte dos "vagos e vagabundos", criminosos a quem se deve combater. Mas será mais adiante que se plantará o problema do gaúcho, pois no universo colonial não é um problema, visto que é parte do modo de vida tradicional pampeano.

A criação do Vice-Reinado do Rio da Prata trouxe um auge à cidade de Buenos Aires, onde, em poucos anos, instalaram-se a administração burocrática vice-reinal, a aduana (1778), o Consulado (1794), obra de iniciativa de Manuel Belgrano, a Audiência (Tribunal de Justiça) em 1785, a Academia de Náutica e a Escola de Desenho (1798). O primeiro jornal nasce em 1801, o Telégrafo Mercantil, que duraria pouco devido à censura do Vice-rei. O segundo, o Semanario de Agricultura, Industria y Comercio tem a mesma sorte. A população da cidade cresce de 9.568 habitantes em 1744 para 32.069 em 1778; mais de 40.000 em 1797 e quase 100.000 em 1810.

[editar] Surgimento do Estado Nação

[editar] Invasões Inglesas

As guerras napoleônicas também repercutiram na Argentina. Em 1797 o vice-rei Antonio Olaguer y Feliú autorizou o comércio com países neutros, devido às dificuldades no comércio com a Espanha por conta das hostilidades. Isto trouxe ao comércio navios estadunidenses, e o aumento da presença britânica no comércio portenho. Com a entrada aberta da Espanha na guerra ao lado da França, a Grã-Bretanha começou a fazer planos para obter mais influência nas colônias espanholas. Em 1806, após a tomada da colônia holandesa no Cabo da Boa Esperança, o comandante Home Pophan, junto ao general William Carr Beresford zarparam até o Rio da Prata, aparentemente por iniciativa própria. A frota toma primeiro Montevideo, para depois se dirigir a Buenos Aires.

O vice-rei Rafael de Sobremonte, ao saber da tomada de Montevideo, especulou que os ingleses não iriam se atrever a se lançarem sobre a capital do vice-reino, e decidiu destinar a maior parte das tropas de Buenos Aires a Montevideo, para retomar a futura capital uruguaia. Quando foi anunciado o desembarque das tropas inglesas na capital, o vice-rei a abandonou junto às rendas do vice-reino, prontas para serem enviadas à Espanha (as quais terminaram barradas nos caminhos próximos à cidade de Luján), com a intenção de organizar um exército e retomar Buenos Aires.

Em junho de 1806 os ingleses tomam Buenos Aires, e em um primeiro momento são recebidos com entusiasmo pelos partidários da independência. Ao se darem conta que os ingleses pretendiam transformar La Plata em uma colônia britânica, somaram-se a grupos que formavam uma iminente rebelião. Santiago de Liniers, que até então era comandante do porto de Enseada, cruzou a Banda Oriental onde se organizava um exército que partiu para Buenos Aires. No caminho, somaram-se milhares de homens entusiasmados, participantes da batalha campal que tomou conta de distintas ruas bonairenses, até encurralar os ingleses no Forte da Cidade e os obrigar à rendição. Retomada a cidade, a Corte (Audiencia) decide assumir o governo civil e entregar a Capitania Geral a Liniers, o qual o vice-rei acata retirando-se por precaução a Montevideo.

John Whitelocke, general da Coroa Britânica. Comandou uma frustrada tentativa de tomada da cidade de Buenos Aires no início do século XIX
John Whitelocke, general da Coroa Britânica. Comandou uma frustrada tentativa de tomada da cidade de Buenos Aires no início do século XIX

Em 1807 chega ao Prata uma segunda expedição inglesa, esta oficial, formada por 11 mil soldados ao mando do general John Whitelocke, que originalmente tinha por destino a tomada do Chile e o reforço de Buenos Aires, mas ao tomar conhecimento da derrota de Popham e Beresford decide retomar a cidade. Esta segunda expedição toma novamente Montevideo e ao desembarcar em Buenos Aires e desfazer as forças muito menores que faziam a resistência, ingressam na cidade por diversas ruas, confiantes de sua supremacia. Todavia encontraram resistência nos habitantes da cidade, que jogaram água fervente nas cabeças dos invasores, evitando assim a tomada da cidade. Com a derrota dos invasores, um cabildo aberto destitui Sobremonte de seu cargo e o envia para a Espanha para ser julgado. Substituindo-no, tomou posse como vice-rei interino Liniers, logo ratificado pelo rei.

Considera-se que geralmente as invasões inglesas são o prelúdio da Independência argentina por vários fatores, entre os quais a capacidade de auto-defesa, a criação de milícias criollas e a convicção de que os argentinos estavam em condição de determinar seu próprio destino.

[editar] O Processo de Independência

As notícias da Independência dos Estados Unidos e da Revolução Francesa insertaram idéias liberais na América Latina. A Argentina começou seu processo de independência da Espanha em 25 de maio de 1810, em um episódio denominado Revolução de Maio, empenhando-se em guerras contra os espanhóis e seus partidários (realistas); a revolução não teve uma calorosa acolhida em todo o vice-reino: outras regiões do Rio da Prata estavam tão interessadas em se tornarem independente de Buenos Aires como da Espanha. Em 1811 o Paraguai produziu sua própria declaração de Independência.

José de San Martín, responsável pela independência da Argentina, Chile e Peru, é, ao lado de Simón Bolívar, o principal responsável pela emancipação dos Estados sul-americanos da coroa espanhola
José de San Martín, responsável pela independência da Argentina, Chile e Peru, é, ao lado de Simón Bolívar, o principal responsável pela emancipação dos Estados sul-americanos da coroa espanhola

Em 1812 as vitoriosas batalhas em que Manuel Belgrano libertou Tucumán e Salta asseguraram o êxito da independência e permitiram que José Gervasio Artigas reunisse o primeiro Congresso da Independência em Arroyo de la China, atual Concepción, Uruguai, em março e abril de 1815. As campanhas militares lideradas pelo general José de San Martín e Simón Bolívar entre 1814 e 1817 incrementaram as esperanças de independência da Espanha, que foi declarada finalmente em Tucumán em 9 de julho de 1816. A desordem reinava nas províncias da atual Argentina. Em 1820, José de San Martín preparava um exército destinado a libertar o Chile e o Peru declarando sua independência. Em 26 de junho de 1822 celebrou-se a histórica reunião com Simón Bolívar.

[editar] Declaração da Independência

Os argentinos consideram San Martín — que realizou a campanha de independência da Argentina, Chile e Peru — como herói de sua emancipação e "Pai da Pátria".

Após a derrota dos espanhóis, os unitários e os federais iniciaram um longo conflito para determinar o futuro da Nação. Em 1820, com a Batalha de Cepeda, iniciou-se um período de autonomias provinciais e guerras civis; a união entre as províncias só se mateve graças aos chamados tratados interprovinciais. As lutas internas no país em formação sucederam-se por mais de quarenta anos. Os caudilhos provinciais dominaram o mapa político ao longo do século XIX e manejavam seus redutos com exércitos próprios.

Bandeira argentina
Bandeira argentina

Em 1826 o Congresso nomeava o primeiro presidente constitucional, Bernardino Rivadavia, de tendências centralistas. Com a cessão do atual Uruguai para o Brasil, foi destituído, assumindo Manuel Dorrego, partidário das autonomias provinciais, que encerrou o conflito com o Império Brasileiro reconhecendo a independência da Banda Oriental. Os unitários sublevados fuzilaram Dorrego, o que iniciou uma nova guerra civil entre unitários e federais.

Em 1829 Juan Manuel de Rosas, federal, assume o governo da província de Buenos Aires, mantendo-se no poder até 1832 e posteriormente de 1835 a 1852. Rosas foi derrotado após uma revolução liderada pelo General Justo José de Urquiza, apoiada pelo Uruguai e Brasil. Finalmente, em 1853, foi sancionada a Constituição Argentina, que se mantém até os dias atuais, com algumas modificações.

[editar] O Surgimento da Argentina Moderna

[editar] A Organização Nacional e a Guerra do Paraguai (1853-1870)

Com a oposição de Buenos Aires, que se regia como um Estado Independennte, Urquiza organizou o Congresso Constituinte de Santa Fé (1853), que aprovou no ano seguinte uma Constituição de caráter republicano, representativo e federal. Urquiza foi proclamado presidente da Confederação, ainda que surgissem dificuldades entre as províncias e Buenos Aires. Emendada a Constituição, Santiago Derqui foi eleito Presidente e Urquiza e Bartolomé Mitre nomeados governadores de Entre Ríos e Buenos Aires, respectivamente. Novos conflitos internos abriram as hostilidades e na Batalha de Pavón (1861) Mitre derrotou Urquiza. Mitre foi nomeado presidente constitucional por um período de seis anos; em 1868 foi sucedido por Domingo Faustino Sarmiento. Em 1865, a Argentina uniu-se ao Brasil e ao Uruguai no que ficou conhecido como Guerra do Paraguai (chamada Guerra da Tríplice Aliança na Argentina e Grande Guerra no Paraguai), derrotando este país, liderado pelo presidente Francisco Solano López (1870).

Sarmiento foi sucedido por Nicolás Avellaneda, que se empenhou em controlar os territórios ainda ocupados pelos indígenas. Durante a década seguinte, o General Julio Argentino Roca estabeleceu o controle do governo nacional sobre os Pampas ao aniquilar os povos indígenas a quem originalmente pertenciam as terras na Campanha do Deserto. Em 20 de setembro de 1880, o Congresso Nacional declarou Buenos Aires capital da República Argentina.

Essas três presidências fundam a Argentina moderna: dão incentivo massivo à imigração européia (principalmente italiana), investem vigorosamente na educação primária (a Argentina logrou ser em pouco tempo o país de população mais educada e culta da América Latina) e, durante aqueles anos, a Argentina começa a ganhar a fama de celeiro do mundo, exportando carnes, grãos e lãs para a Europa e os Estados Unidos.

[editar] A Geração de 80

Após a presidência de Julio Argentino Roca, assumiu Miguel Juaréz Celman (1886), deposto em 1890 devido à revolução — que foi sufocada e substituído pelo vice-presidente Carlos Pellegrini. Sucederam no cargo Luis Sáenz Peña (1892), José Evaristo Uriburu (1895), Julio Argentino Roca (1898), Manuel Quintana (1904), José Figueroa Alcorta (1906), Roque Sáenz Peña (1910) e Victorino de la Plaza (1914).

Duas forças se combinaram para criar a nação moderna argentina ao final do século XIX: a introdução de técnicas modernas de agricultura e a integração da Argentina à economia mundial. Os investimentos estrangeiros e a imigração européia formentaram o progresso econômico da época. Os investimentos, principalmente de origem inglesa, foram destinnados a áreas como o desenvolvimento ferroviário e os portos. Os imigrantes — que trabalhavam para desenvolver os recursos da Argentina, principalmente nos pampas ocidentais — chegaram de toda a Europa, assim como nos Estados Unidos. Entre os anos 1880 e 1929 o país teve prosperidade econômica, orientada cada vez mais para a exportação de matérias primas e importação de manufaturados.

Roque Sáenz Peña, Presidente da Argentina
Roque Sáenz Peña, Presidente da Argentina

Os governos de Roca e subseqüentes foram aliados dos oligarcas argentinos, especialmente os grandes proprietários de terra. As forças conservadoras dominaram a política local até 1916, quando a lei Sáenz Peña de sufrágio universal permitiu o triunfo eleitoral de seus tradicionais rivais, os radicais, liderados por Hipólito Yrigoyen. Os radicais, que haviam protagonizado diversas tentativas revolucionárias contra o regime oligárquico, abriram as portas da expansão econômica para a classe média.

[editar] O Centenário da Independência

Apesar da prosperidade econômica argentina, o país estava marcado por grandes desigualdades regionais e sociais.

Em 1910 completou-se o centenário da Revolução de Maio, passo inicial para a independência. O Governo argentino, presidido por José Figueroa Alcorta, decidiu organizar as festividades da data, como um acontecimento internacional ao qual estiveram presentes personalidades de todo o mundo. Compareceram a Infanta Isabel, da Espanha; o presidente do Chile, Pedro Montt e representantes de numerosos países. Os presidentes da Bolívia e do Brasil estiveram ausentes devido às más relações diplomáticas com a Argentina. A capital, Buenos Aires, foi o centro dos festejos, com diversas cerimônias organizadas pelo governo e particulares.

Paralelamente às festividades, os sindicatos expressaram seu descontentamento com a desigualdade social e econômica. A CORA e a FORA, dirigidas por correntes socialista, sindicalista revolucionária e anarquista, realizaram protestos e ameaçaram promover uma greve geral. Pediam o fim da Lei de Residência, que dava ao governo a possibilidade de expulsar estrangeiros sem o devido processo legal. O governo impôs estado de sítio e a polícia reprimiu os manifestantes. Os partidos operários se fragmentaram e a greve não se realizou.

Para a elite argentina, o ato do Centenário foi uma demonstração do poder e grandeza que perduraria por alguns anos.

[editar] Os Governos Radicais (1916-1930)

Com a chegada dos Radicais ao poder, houve uma declaração de princípios: a Causa contra o Regime, a Reparação Histórica, a recuperação da ética e o respeito ao Federalismo.

No conceito de "Causa contra o Regime", a "causa" era a causa radical, e seus ideais eram a honra do país, a pureza do sufrágio, a reorganização nacional, a democracia e o respeito à Constituição e às leis. O "regime" era o governo do Partido Autonomista Nacional (PAN); contra este regime chega a "causa" (a União Cívica Radical, UCR), sanando os danos cometidos pelos antecessores. A retórica radical propôs ideais difíceis de alcançar, realizando poucas ações concretas.

[editar] O Primeiro Governo de Yrigoyen (1916-1922)

Com a promulgação da Lei Sáenz Peña, a Argentina teve suas primeiras eleições livres, com sufrágio universal e secreto. Yrigoyen foi eleito e assumiu a presidência em 1916. Este período é conhecido pela história argentina como "A Etapa Radical", que se segue até 1930, com o primeiro golpe de estado do país. O governo privilegiou um setor anteriormente esquecido, a classe média. Entre as ações mais importantes do 1º mandato de Yrigoyen estão a criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), a reforma universitária e a criação da Marinha Mercante Nacional.

O país teve grande fomento econômico neste período devido à Primeira Guerra Mundial, devido à exportação de produtos primários.

[editar] O Governo de Alvear (1922-1928)

As eleições presidenciais ocorreram em 2 de abril de 1922. A UCR obteve 450.000 votos; já a Concentração Nacional (conservadores) obteve 200.000 votos; o Partido Socialista, 75.000 votos — mesmo número que o Partido Democrata Progressista.

Marcelo Torcuato de Alvear desenvolveu uma presidência diferente de seu antecessor: as medidas de transformação econômica, política e social del