FerramentasOutras línguas
|
AteísmoO ateísmo ou ateía (não confundir com atéia, feminino de ateu[1]) em um sentido lato, refere-se à descrença em qualquer Deus, deuses ou entidades divinas. Os ateus podem, contudo, incluir-se em várias modalidades de pensamento, sendo o pensamento ateísta dividido em duas categorias específicas: o ateísmo fraco e o ateísmo forte. Alguns autores defendem um uso mais restrito do termo, reservando-o apenas para determinados grupos. Assim, não poderiam ser englobados na categoria dos ateus todas as pessoas indecisas quanto a qualquer crença religiosa (agnósticos), o que excluiria do conceito e sua definição aqueles que são designados como ateus fracos. Contudo, é frequente, em discursos orientados por uma religião e cultura específicas, que se considere como ateu todo aquele que não partilhe as mesmas crenças religiosas. Por exemplo, era freqüente que os antigos romanos acusassem os antigos cristãos de ateísmo, justificando assim a sua perseguição. Os textos cristãos, por seu lado, usavam o mesmo termo para classificar os seus perseguidores. Este tipo de discurso ainda é frequente atualmente.
[editar] EtimologiaO termo "ateu" é formado pelo prefixo grego a-, significando "ausência" e o radical "teu", derivado do grego theós, significando "deus". O significado literal do termo é, então: "sem deus". Teísmo é a crença em algum deus, assim, a ausência da crença será o ateísmo (ausência de teísmo). [editar] O que o ateísmo não éO ateísmo é considerado como uma posição ideológica em relação à crença em deuses. Não pode ser considerado como um tipo específico de religião já que, na maioria das definições aceitas, para que uma dada perspectiva seja classificada como tendo caráter religioso, esta deve ter como elemento central um ou mais deuses, ou entidades divinas. Certas correntes filosóficas podem ser consideradas como ateístas, mas o conceito de ateísmo não se prende a uma filosofia ou religião específica. Devemos lembrar que algumas correntes do Budismo e Jainismo podem ser denominadas ateístas por não apresentarem nenhuma definição de deus, (mas isso é controverso e não devemos confundir Budismo com ateísmo, ou, muito menos, o inverso). De fato, existem tantos ateus, diferentes entre si, quanto as pessoas de uma dada população, no seu todo. Pelo simples fato de uma pessoa ser atéia, não se pode inferir que esta pessoa esteja alinhada a qualquer crença positiva particular (isto é, que não se limite à ausência de crença) e não implica a aceitação de qualquer sistema filosófico específico. O ateísmo também não é uma visão do mundo ou um modo de vida: existem ateus com os mais diversos gostos musicais, preferências políticas, clubes de futebol, escolhas morais, etc. Além disso, o indivíduo ateu não é necessariamente ligado ao comunismo ou a qualquer outro sistema particular de organização social. Os ateus representam muitas vertentes do espectro político. Obviamente, o fato dos ateus discordarem das idéias de pessoas religiosas não significa que defendam a perseguição dos religiosos - embora algumas correntes políticas tenham optado pela repressão, como na antiga União Soviética, alegando que os religiosos tinham sido cúmplices do regime czarista. Em discursos contra o ateísmo são, ainda, frequentes algumas acusações infundadas e que entrariam mesmo em contradição com a própria definição do termo. Por exemplo, os ateus não defendem a adoração de Satã (do hebraico satan, "o adversário"), já que a crença em forças demoníacas só faria sentido se se aceitasse a existência de um ou mais deuses. O Satanismo, portanto, é uma religião por definição, sendo rejeitada pelos seguidores do ateísmo. As crenças típicas da "nova era", ou semelhantes, são também rejeitadas, em princípio, por qualquer ateu. [editar] Tipos de ateusEm termos gerais, o ateu é visto como alguém que aspira à objetividade e que recusa qualquer dogma. Muitos são céticos. Recusam-se a acreditar em algo por meio da fé, essencialmente e assumidamente irracional. A mesma fé que, sendo o sustentáculo das crenças de grande parte dos teístas, não o é obrigatoriamente: as idéias teístas nem sempre dependem dela. Muitos ateus consideram que a concepção mais frequente de divindade, tal como é apresentada pela maioria das religiões, é essencialmente autocontraditória, sendo logicamente impossível a sua existência. Outros ateus também podem ser levados a rejeitar a idéia de um deus por estar em desacordo com sua ideologia. Alguns dos que poderiam ser chamados ateus não se identificam com o termo, preferindo ser chamados de agnósticos, ou seja, ainda que deixem aberta essa possibilidade, não afirmam nem negam a existência de qualquer entidade divina, de modo que não orientam a sua vida ou suas escolhas com base no pressuposto na existência de potências sobrenaturais. Nesse caso, o agnosticismo identificar-se-ia com o "ateísmo fraco". Para muitos, o verdadeiro ateu não aceitaria nenhuma das posições acima, sendo que julga a inexistência de deuses pela impossibilidade física ou lógica dos mesmos. Não abre chance a possibilidades, pois já estaria provada pela natureza em si sua posição. Essa corrente é a também chamada de "ateísmo forte". Em última instância, há vários tipos de ateus e muitas justificativas filosóficas possíveis para o Ateísmo. Desse modo, se se quiser descobrir por que uma pessoa em particular diz ser ateísta, o melhor é perguntar-lhe directamente. [editar] O ateísmo no mundo e na história
Porcentagem de pessoas que disseram acreditar em algum deus em pesquisa realizada em 2005 na União Européia.
A Encyclopædia Britannica estima que cerca de 2,5% da população mundial se classifica como ateísta. Parte considerável da população mundial, cerca de 20%, descreve-se como "não-religiosa" - termo que engloba agnósticos e deístas. O ateísmo é um pouco mais preponderante na Europa e na Rússia do que nos Estados Unidos e raramente se encontra no terceiro mundo (existe, contudo, em Estados que durante a Guerra Fria eram considerados do 2º mundo, onde o ateísmo é ideologia oficial do Estado, como a República Popular da China, a Coréia do Norte e Cuba uma elevada percentagem de ateus). De acordo com uma pesquisa de 2003, 33% dos franceses adultos dizem que o termo "ateu" define muito bem sua posição sobre religião. Destaca-se 59% da população da República Checa, que se declara como ateísta. É possível que o ateísmo esteja mais disseminado do que as pesquisas sugerem. Ateus que expressam abertamente a sua opinião passam frequentemente a carregar um estigma social, correndo o risco de serem discriminados, ou, em alguns países, condenados à morte. Alguns adeptos de visões teístas julgam aqueles que não professam qualquer crença em divindades como sendo amorais ou não confiáveis - inadequados, portanto, como membros da sociedade. O ateísmo já foi considerado crime em muitas sociedades antigas, sendo-o ainda em algumas da actualidade. As escrituras de muitas religiões condenam os descrentes. Podemos encontrar um exemplo bíblico na história de Amaleque. Na Europa Medieval, o ateísmo era tido como amoral e muitas vezes criminoso; ateus podiam ser sentenciados à morte na fogueira[carece de fontes] , especialmente em países onde actuava a Inquisição. Enquanto o Protestantismo sofria discriminação e perseguição pela então dominante Igreja Católica Romana, Calvino também defendia a morte de ateus[carece de fontes] e hereges na fogueira. O fato é que algumas igrejas, seitas ou grupos perseguiram, e ainda hoje perseguem, aqueles que não compartilham de suas interpretações religiosas, perseguindo ateus e teístas - mesmo aqueles que fazem parte da mesma religião mas que se insiram em grupos, seitas ou igrejas com interpretações religiosas distintas.
Karl Marx, um dos mais famosos ateus da história.
Por outro lado, o ateísmo é, por vezes, a posição oficial de países comunistas, como a ex-União Soviética, o ex-bloco Oriental e a República Popular da China. Karl Marx, ateu e descendente de rabino judeu, afirmava que religião é "o ópio do povo". Queria com isto afirmar que esta existe para encobrir o verdadeiro estado das coisas numa sociedade, tornando os indivíduos mais receptivos ao controle social e exploração. Concomitantemente, afirmava que a religião era "a alma de um mundo sem alma", querendo assim dizer que a experiência religiosa surgia como uma reação normal de busca de sentido numa realidade social alienante. Doutrinas marxistas à parte, o fato é que tais Estados encontraram um meio de desencorajar todas as religiões no intuito de enfraquecer quaisquer possíveis centros de oposição ao seu completo controle sobre esses Estados. Na União Soviética e na República Popular da China, eram toleradas algumas igrejas que se submetiam ao estrito controle do estado. É notável que a resistência ao comunismo frequentemente encontrasse focos em assuntos religiosos, e ao papa João Paulo II é muitas vezes dado o crédito de ter ajudado a terminar com o comunismo no Leste Europeu. A luta do Dalai Lama Dalai Lama pela independência do Tibet Tibet seria outro exemplo. Desde a Segunda Guerra Mundial, toda formatura militar nos Estados Unidos é acompanhada pelo freqüente uso dos dizeres "Não existem ateus em trincheiras"[carece de fontes]. Durante a Guerra Fria, o fato dos inimigos dos EUA serem oficialmente ateus ("Comunistas sem deus") Macartismo somou-se à visão de que ateus não são confiáveis nem patriotas. Recentemente na campanha presidencial de 1987 nos (oficialmente seculares) EUA, George H. W. Bush disse "não sei se ateus deveriam ser considerados como cidadãos nem como patriotas. Essa é uma nação sob Deus."[carece de fontes] Declarações similares foram feitas durante a discussão que cercava a inclusão da frase "sob Deus" no Juramento de Lealdade Americano, palavras que foram adicionadas ao juramento no início do período da Guerra Fria. Apesar das atitudes do período de Guerra Fria, os ateus são legalmente protegidos da discriminação nos EUA e são os mais fortes advogados da separação legal entre igreja e Estado. Os tribunais americanos regularmente - se não controversialmente - interpretam o requisito constitucional em relação à separação entre Igreja e Estado como sendo protetor da liberdade dos descrentes, e também proibindo o estabelecimento de qualquer estado religioso. Os ateus muitas vezes resumem a situação legal com a frase: "Liberdade religiosa também significa liberdade da não religião." A despeito dos preconceitos, a desfiliação religiosa cresce em vários países, incluindo os lusófonos. No Brasil, os não-religiosos já somam mais de 13 milhões de indivíduos[carece de fontes]. A religião não é a única fonte de formulação de valores éticos e morais, pois a secularização das sociedades é algo inegável. [editar] O ateísmo requer fé?
Na discussão sobre o Ateismo, devemos distinguir duas acepções da palavra fé: 1. Fé como crença em afirmativas empíricas sem evidência suficiente, ou fé de caráter cognitivo ("O detetive Poirot não pode provar agora, mas acredita que a testemunha está mentindo"); 2. Fé como misto de confiança e esperança, ou fé de caráter emocional ("Tenho fé que o detetive Poirot será capaz de solucionar o caso"). Nesse nível mais profundo de discussão, ateísmo e fé não são auto-excludentes. Ambos, o ateu e o religioso, podem basear concepções sem uma fundamentação completa. Assim, um cidadão comum, medianamente bem-informado, pode acreditar na dualidade onda-partícula, ainda que não tenha a bagagem necessária para investigar os pressupostos em que ela se baseia. Os leigos, e mesmo os estudantes de graduação, aceitam a autoridade dos cientistas nessa área. O ceticismo não é uma característica do ateu: o ceticismo frente à autoridade científica é uma marca dos fundamentalismos religiosos e da New Age, seja na defesa da Teoria da Terra Jovem, Teoria da Terra Oca, Teoria da Terra Plana, UFOs, Fenômenos Paranormais etc. Grande parte dos religiosos e espiritualistas, quando o conhecimento científico contraria suas crenças, mostram-se céticos e formulam uma série de Teorias Conspiratórias a fim de minar a autoridade científica. Talvez o uso recorrente de Teorias Conspiratórias seja um melhor delimitador entre o conhecimento científico e o pseudo-científico. Outra característica da religião está no fato de que sua base dogmática e postulados fundamentais não são questionáveis sem que isto acarrete uma mudança de paradigma religioso, gerando uma grande diversificação de posições teológicas, escolas de pensamento e seitas, todas coexistindo ao mesmo tempo. Em Religião, com exceção do movimento ecumênico cuja ênfase seria em uma unidade de ação, não de crença, o consenso entre diferentes visões de mundo não é um valor em si. Nisso a religião se assemelha à Filosofia e se distingue do conhecimento científico, onde o consenso é valorizado na forma de paradigmas científicos (ver Thomas Kuhn) e programas de pesquisa com núcleos (postulados) inquestionáveis (ver Inre Lakatos). Isso não exclui, é claro, a coexistência de paradigmas científicos durante longos períodos de tempo (diferentes interpretações da Mecânica Quântica, diferentes cenários de evolução humana etc). O ponto controverso entre ateismo e religiões teístas é a hipótese-deus. Ateus argumentam que as diferentes mitologias religiosas são mutuamente incompatíveis, de modo que neste nível de mitologias cosmogônicas, tais visões não podem estar todas corretas. Ou, em um nível mais abstrato, a principal diferença entre ateus e espiritualistas se refere à questão de se os principais eventos da história do Universo, da história humana e da vida individual, seriam frutos de um acaso não intencional ou de uma intencionalidade mascarada de acasoPredefinição:Necessita Citação. A educação religiosa das crianças, que aceitam com igual naturalidade a idéia de Deus e de Papai Noel, é um dos pontos considerados mais delicados da discussão entre secularismo e religião. Têm os pais o direito de educar seus filhos dentro de sua tradição religiosa ou as crianças, enquando cidadãos potenciais, deveriam ser protegidas deste tipo de influência social? Os limites entre fé legítima e defesa da doutrinação recebida tornam-se difusos: o indivíduo é impregnado pela família e pelo grupo social de uma cultura que não teve a oportunidade de escolher ou recusar, no chamado processo de socialização. Dificilmente terá uma base de análise e argumentação que lhe permita discutir livre e conscientemente o assunto - sejam pinturas na parede da caverna, sejam práticas xamânicas, seja um elaborado ritual em uma catedral. Religiosos contra-argumentam que o mesmo tipo de socialização forçada ocorre quando um pai veste o filho com a camisa se seu time de futebol, ou quando educa seus filhos contra o racismo: ambas as atitudes não podem ser justificadas racionalmente. O questionamento racional das tradições, sejam políticas sejam religiosas, é uma característica da sociedade ocidental, especialmente depois do Iluminismo. Desde então, em um movimento de reação, o Romantismo, o Neo-Romantismo e o Pós-Modernismo têm formulado críticas à visão da modernidade racional iluminista. Por sua vez, movimentos como o novo Humanismo Secular e o Neo-Marxismo, com sua crítica à visão pós-moderna, tentam renovar as bases filosóficas e a prática do ateísmo. Finalmente, argumentos como "falta de fé" e mesmo "influência demoníaca" têm sido empregados nas religiões populares para explicar o comportamento dos ateus. Cabe notar que esse retorno a um pensamento medieval é mais visível nos fundamentalismos religiosos. Essa atitude pode estar ligada a uma nova onda de reação ao processo de secularização iniciada durante os anos 60, com ênfase numa visão mais mística da natureza e da religião (New Age, renovação carismática, neo-pentecostalismo e movimentos fundamentalistas no Cristianismo, Judaismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo. No segundo sentido de fé como confiança-esperança, um ateu tanto pode ter fé (em si mesmo, na vida, nos direitos humanos, em uma ideologia política) como pode não ter (niilismo). Ou seja, um ateu e um crente que acreditam que vale a pena lutar por um mundo mais justo têm mais em comum do que um ateu hedonista e um crente cuja religião não tem nenhum impacto em seu comportamento (religiosos nominais). Essas crenças ideológicas em comum podem levar a um ecumenismo da ação, como o ocorrido entre marxistas e cristãos as décadas de 1970-1980 (ver Teologia da Libertação). Para muitos agnósticos e ateus fracos, tanto o teísta quanto o ateu forte estariam baseando suas afirmações na fé, e não no conhecimento. Segue abaixo um pequeno resumo de argumentos acerca da idéia, (aqui o termo ateu será usado como sinônimo de ateu forte).
Essa discussão tem muitas facetas e envolvem desde discussões epistemológicas até a própria definição de termos como fé e crença. Não parece provável que surja uma resposta consensual no futuro próximo. [editar] Ver também
[editar] Bibliografia
[editar] Ligações externas
|